12.7.11

A VALSA - Eça de Queiroz

Na educação da mulher, uma só coisa é profundamente boa - a valsa. E é justamente o que mais lhe regateia uma moralidade banal. A valsa é higiênica, moral, depurativa, educadora e positiva.

Um higienista célebre recomendava a todas as mulheres de 14 anos para cima duas horas de valsa por dia. Os movimentos rápidos, galopados, fortemente sacudidos, a transpiração igual, outras circunstâncias tornam a valsa um exercício radicalmente salutar, quasi igual à ginástica: desenvolve a firmeza no andar, a solidez das articulações, faz girar abundantemente e igualmente o sangue, robustece o peito, exercita e excita a facilidade da respiração. É um doce medicamento contra a anemia, a palidez, os suores. É sobretudo uma fadiga. Toda a mulher que se não cansa, idealisa. A valsa dá bons sonos saudáveis e frescos, o apetite inglês. Dá às raparigas uma boa alegria de ave que vôa. E têm-se visto doenças inexplicáveis de mulheres curarem-se com uma valsa. As boas valsas são as Strauss, ágeis, alegres, radiosas, impelidas, firmemente resvaladas - que têm alguma coisa de ataque e muito de triunfo.

A valsa é moral e educadora: porque acostuma as mulheres a ter dos homens uma idéia positiva e burguesa. É por isso que os românticos, os netos de Byron e de D. Juan não valsavam: pálidos, encostados à hombreira, com a gravata de cetim negro em nó, o olhar triste e dominante, os dedos errantes em longos bigodes, sentimentais, estavam imóveis em todo o encanto do seu mistério, exalando romance. O homem que na frescura da sua toilette, a pelo macia e seca, a claque debaixo do braço, sereno, fresco, perfeito, intato, conversa e ri num baile, pode excitar o sentimento: quem nunca o excitará é o valsista – com a pele oleosa, a testa cheia de gotas, a respiração ofegante, um arquejar pesado, o nariz lusidio, a aba da casaca esvoaçando, as pernas pulantes como as de um gafanhoto que vai para os seus negócios, o ar embezerrado vermelho, soprando, feliz e grotesco.

A mulher olha e sorri. Porque ela é que não perde a graça, se a tem, e o arfar dá-lhe a delicadeza, todos os abandonos mimosas da ave cançada. Além disso os vestidos compridos, rojados, leves, foram feitos para a valsa e acentuam-na como um palpitar de asas. De sorte que póde rir, legitimamente, de cima de seu encanto, do pobre homem que a seu lado resfolga, escarlate e esfalfado. E depois, o homem que valsa, como póde ter espírito? O que naturalmente lhe sairia pela bôca fóra, se a abrisse, não seriam as graças – seriam os bofes: é por isso que ele, duro, cerrado, espesso, alagado, guarda dentro de si para seu uso, cuidadosamente – a pilhéria e a víscera.

Na valsa a mulher faz a poesia do movimento – o homem faz-lhe a farsa. O homem, de resto, nunca deve dansar, o seu movimento são as armas, a luta, a marcha, o salto, a ginástica: já Napoleão o dizia.  O Oriente, tão profundo e tão sutil, compreendeu isto admiravelmente; aí as mulheres dansam sós entre si; o homem, encostado no divan, contempla e fuma o chibouk.

Valsem! Valsem! – e creiam que esta glorificação é desinteressada: o que escreve estas linhas não valsa. Valsou. Valsou daqui ao Oriente e ao Ocidente. Valsou com um preto. Na sala deserta, luminosa e cintilante como uma visão do sultão Achmed, quatro pessoas assistiam gravemente áquela valsa solitária: um chefe de tribu dos confins da Núbia, imóvel na sua túnica de linho e fio de oiro, lord C... que morreu agora em Florença, um sábio doutor prussiano madeemoiselle J... des Bouffes  e um capitão de artilharia inglesa, que olhava gravemente, a cavalo num criado. E tantas saudades he ficaram, ao que isto conta, daquela valsa – que assim como o rei de Thule nunca mais valsou!

Revista Literária

2 comentários:

Malu disse...

Hoje estou passando apenas para lhe fazer um convite.
Estou falando do www.superlinks.blog.br que é um site agregador que vale a pena visitar, pois é mais um espaço no qual você poderá publicar seus links de matérias, pois é um site sério e com critérios bem positivos.
Espero que goste da dica.
Um grande abraço

Malu disse...

Passe o tempo que passar... a vida muda, a sociedade e suas atitudes, masculinas ou femininas... mas as VALSA sempre serão mágicas e carregadas de encantamento.
Abraços