24.9.11

Humor

Diz a lenda que Rui Barbosa, ao chegar em casa, ouviu um barulho estranho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou haver um ladrão tentando levar seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com seus patos, disse-lhe:

- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica, bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:
- Dotô, resumindo, eu levo ou deixo os pato?

12.7.11

A VALSA - Eça de Queiroz

Na educação da mulher, uma só coisa é profundamente boa - a valsa. E é justamente o que mais lhe regateia uma moralidade banal. A valsa é higiênica, moral, depurativa, educadora e positiva.

Um higienista célebre recomendava a todas as mulheres de 14 anos para cima duas horas de valsa por dia. Os movimentos rápidos, galopados, fortemente sacudidos, a transpiração igual, outras circunstâncias tornam a valsa um exercício radicalmente salutar, quasi igual à ginástica: desenvolve a firmeza no andar, a solidez das articulações, faz girar abundantemente e igualmente o sangue, robustece o peito, exercita e excita a facilidade da respiração. É um doce medicamento contra a anemia, a palidez, os suores. É sobretudo uma fadiga. Toda a mulher que se não cansa, idealisa. A valsa dá bons sonos saudáveis e frescos, o apetite inglês. Dá às raparigas uma boa alegria de ave que vôa. E têm-se visto doenças inexplicáveis de mulheres curarem-se com uma valsa. As boas valsas são as Strauss, ágeis, alegres, radiosas, impelidas, firmemente resvaladas - que têm alguma coisa de ataque e muito de triunfo.

A valsa é moral e educadora: porque acostuma as mulheres a ter dos homens uma idéia positiva e burguesa. É por isso que os românticos, os netos de Byron e de D. Juan não valsavam: pálidos, encostados à hombreira, com a gravata de cetim negro em nó, o olhar triste e dominante, os dedos errantes em longos bigodes, sentimentais, estavam imóveis em todo o encanto do seu mistério, exalando romance. O homem que na frescura da sua toilette, a pelo macia e seca, a claque debaixo do braço, sereno, fresco, perfeito, intato, conversa e ri num baile, pode excitar o sentimento: quem nunca o excitará é o valsista – com a pele oleosa, a testa cheia de gotas, a respiração ofegante, um arquejar pesado, o nariz lusidio, a aba da casaca esvoaçando, as pernas pulantes como as de um gafanhoto que vai para os seus negócios, o ar embezerrado vermelho, soprando, feliz e grotesco.

A mulher olha e sorri. Porque ela é que não perde a graça, se a tem, e o arfar dá-lhe a delicadeza, todos os abandonos mimosas da ave cançada. Além disso os vestidos compridos, rojados, leves, foram feitos para a valsa e acentuam-na como um palpitar de asas. De sorte que póde rir, legitimamente, de cima de seu encanto, do pobre homem que a seu lado resfolga, escarlate e esfalfado. E depois, o homem que valsa, como póde ter espírito? O que naturalmente lhe sairia pela bôca fóra, se a abrisse, não seriam as graças – seriam os bofes: é por isso que ele, duro, cerrado, espesso, alagado, guarda dentro de si para seu uso, cuidadosamente – a pilhéria e a víscera.

Na valsa a mulher faz a poesia do movimento – o homem faz-lhe a farsa. O homem, de resto, nunca deve dansar, o seu movimento são as armas, a luta, a marcha, o salto, a ginástica: já Napoleão o dizia.  O Oriente, tão profundo e tão sutil, compreendeu isto admiravelmente; aí as mulheres dansam sós entre si; o homem, encostado no divan, contempla e fuma o chibouk.

Valsem! Valsem! – e creiam que esta glorificação é desinteressada: o que escreve estas linhas não valsa. Valsou. Valsou daqui ao Oriente e ao Ocidente. Valsou com um preto. Na sala deserta, luminosa e cintilante como uma visão do sultão Achmed, quatro pessoas assistiam gravemente áquela valsa solitária: um chefe de tribu dos confins da Núbia, imóvel na sua túnica de linho e fio de oiro, lord C... que morreu agora em Florença, um sábio doutor prussiano madeemoiselle J... des Bouffes  e um capitão de artilharia inglesa, que olhava gravemente, a cavalo num criado. E tantas saudades he ficaram, ao que isto conta, daquela valsa – que assim como o rei de Thule nunca mais valsou!

Revista Literária

9.4.11

Café

"Negro como o diabo
Quente como o inferno
Puro como um anjo
Doce como o amor”
                                     Talleyrand 

28.3.11

Adotei um cachorrinho...

Exatamente há 5 meses atrás fiquei sabendo, por intermédio de uma amiga, que os porteiros do prédio ao lado iam desfazer-se de um cachorrinho. Eles já tinham feito várias tentativas de doá-lo e, sem conseguirem, estavam pretendendo ir longe dali, onde deixariam o bichinho nas ruas. Fiquei enfurecida! Como alguém tem a coragem de fazer isso??? Fui lá, falei pelos cotovelos e voltei para casa trazendo o bichinho... Um companheirão... 
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E foi procurando dicas para cuidar dele que encontrei este vídeo. Achei ótima a idéia da toalha, resolví divulgar. Vejam aqui... Está em inglês, mas pelo vídeo dá para entender tudinho... Água morna, toalha, coleira, algodão, etc e um cachorro calminho, porque o meu aqui...Aff... É um banho a dois! rsrs...
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25.3.11

Comprei o ponto!

O sonho de ser o seu próprio chefe é o sonho de todos, mas querer nem sempre é poder. É preciso ter perfil para empreender, ter habilidade para gerenciar e ter as competências necessárias para estar à frente do próprio negócio, pois não importa em qual ramo estamos - todos exigem reformulação permanente!

Há pequenos empreendimentos que, em tese, parecem fáceis de conduzir. Entretanto, o que de início parecia simples sempre tende a complicar, basta ir acumulando tempo no mercado e as marolas econômicas vão empurrando o empreendedor para mares turbulentos, exigem estratégias complexas e às vezes mudanças de rumo bem radicais... Logo chegam novas responsabilidades, novas tecnologias, exigência de novos conhecimentos...

Embora estejamos em plena era tecnológica, quando é imprescindível conhecer todos os seus recursos, ainda encontramos empreendimentos onde formulários, gráficos e planilhas simplesmente não existem, onde planejamento financeiro é um bicho de sete cabeças, um plano de negócios é um ilustre desconhecido, o computador é uma ‘traquitana’ totalmente dispensável que existe só para enfeitar a mesa de trabalho e o arquivo, que poderia ser um recurso, surpreende como lugar para guardar bolsas e pacotes de papel higiênico. Tudo, absolutamente TUDO, estava registrado na memória do dono!

Esses empreendimentos ainda existem, não são poucos, até dão lucro e possuem considerável movimento de clientes - fiéis e constantes. Você esteve lá em diversos momentos, comprovou a casa cheia, conversou com o contador diversas vezes, analisou contas e documentos, tudo pareceu estar ok! Mas você não encontrou registros gerenciais do passado... O dono foi embora com os registros na memória DELE. E você se vê à frente de uma verdadeira ‘cama de gato’ que precisa ser deslindada. Ele administrava com base no feeling, a experiência adquirida pela vivência fez o negócio subsistir. A situação agora é a de ‘administrar partindo do zero’, sem perder o feeling!

Então, você comprou o ponto. Ótimo! E agora? Vai revender o empreendimento daqui a um ano com considerável prejuízo, ou está muito bem preparado para seguir o caminho e tornar-se grande?

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(Este é um exemplo com base em fatos reais. O ex-dono revendeu o empreendimento após um ano, porque ele “não deu certo”...)
By: Nanda Nogueira

16.3.11

Soledade

Soledade é uma cidade de Minas pertinho de São Lourenço. Vale a pena passear por lá, conhecer a feirinha de artesanato que funciona durante o tempo em que a Maria Fumaça fica na cidade, é um passeio muito agradável e alegre. Registrei um pouquinho do que ví, e o vídeo é minha primeira produção...

video
By: Nanda

A música? Eu a-do-ro música sertaneja e a voz da Paula é minha bola da vez. Junto com Sérgio Reis então... Uau!!!

Aquele estranho animal. (Mario Quintana)

            Os do Alegrete dizem que o causo se deu em Itaqui, os de Itaqui dizem que foi no Alegrete, outros juram que só poderia ter acontecido em Uruguaiana. Eu não afirmo nada: sou neutro.
            Mas, pelo que me contaram, o primeiro automóvel que apareceu entre aquela brava indiada, eles o mataram a pau, pensando que fosse um bicho. A história foi assim como já lhes conto, metade pelo que ouvi dizer, metade pelo que inventei, e a outra metade pelo que sucedeu às deveras. Viram? É uma história tão extraordinária mesmo que até tem três metades... Bem, deixemos de filosofança e vamos ao que importa. A coisa foi assim, como eu tinha começado a lhes contar.

            Ia um piazinho estrada fora no seu petiço – tropt, tropt, tropt – (este é o barulho do trote) – quando de repente ouviu – fufufupubum! Fufufupubum chiiiipum!
            E eis que a “coisa” então invisível, apontou por detrás de um capão, bufando que nem touro brigão, saltando que nem pipoca, se traqueando que nem velha coroca, chiando que nem chaleira derramada e largando fumo pelas ventas como a mula-sem-cabeça.
            “Minha Nossa Senhora!”
            O piazinho deu meia volta e largou numa disparada louca rumo da cidade, com os olhos do tamanho de um pires e os dentes rilhando, mas bem cerrados para que o coração aos corcoveios não lhe saltasse pela boca.
            É claro que o petiço ganhou luz do bicho, pois no tempo dos primeiros autos eles perdiam para qualquer matungo.
            Chegado que foi, o piazinho contou a história como pôde, mal e mal e depressa, que o tempo era pouco e não dava para maiores explicações, pois já se ouvia o barulho do bicho que se aproximava.
            Pois bem, minha gente: quando este apareceu na entrada da cidade, caiu aquele montão de povo em cima dele, os homens com porretes, outros com garruchas que nem tinham tido tempo para carregar de pólvora, outros com boleadeiras, mas todos de a pé, porque também nem houvera tempo para montar, e as mulheres umas empunhando as suas vassouras, outras as suas pás de mexer marmelada, e os guris, de longe, se divertindo com os seus bodoques, cujos tiros iam acertar em cheio nas costas do combatentes. E tudo abaixo de gritos e pragas que nem lhes posso repetir aqui.
            Até que enfim houve uma pausa para respiração.
            O povo se afastou, resfolegante, e abriu-se uma clareira, no meio da qual se viu o auto emborcado, amassado, quebrado, escangalhado, e não digo que morto porque as rodas ainda giravam no ar, nos últimos transes de uma teimosa agonia. E quando as rodas pararam, as pobres, eis que o motorista, milagrosamente salvo, saiu penosamente engatinhando por debaixo dos escombros de seu ex-automóvel.
            - A la pucha! – exclamou então um guasca, entre espantado e penalizado – o animal deu cria!

                                           Mario Quintana. Caderno H. 5ª edição. Editora Globo,1973

O mundo do sonho (Mario Quintana)

“O mundo do sonho é silencioso como o mundo submarino. Por isso é que faz bem sonhar.”

A Lição do Jardineiro

Um dia, o executivo de uma grande empresa contratou, pelo telefone, um jardineiro autônomo para fazer a manutenção do seu jardim.

Chegando em casa, o executivo viu que estava contratando um garoto de apenas 15 ou 16 anos de idade. Contudo, como já estava contratado, ele pediu para que o garoto executasse o serviço.

Quando terminou, o garoto solicitou ao dono da casa permissão para utilizar o telefone e o executivo não pôde deixar de ouvir a conversa.

O garoto ligou para uma mulher e perguntou: “A senhora está precisando de um jardineiro?”
“Não. Eu já tenho um”, foi a resposta.
“Mas, além de aparar a grama, frisou o garoto, eu também tiro o lixo.”
“Nada demais, retrucou a senhora, do outro lado da linha. O meu jardineiro também faz isso.”
O garoto insistiu: “eu limpo e lubrifico todas as ferramentas no final do serviço.”
“O meu jardineiro também, tornou a falar a senhora.”
“Eu faço a programação de atendimento, o mais rápido possível.”
“Bom, o meu jardineiro também me atende prontamente. Nunca me deixa esperando. Nunca se atrasa.”
Numa última tentativa, o menino arriscou: “o meu preço é um dos melhores.”
“Não”, disse firme a voz ao telefone. “Muito obrigada! O preço do meu jardineiro também é muito bom.”

Desligado o telefone, o executivo disse ao jardineiro: “Meu rapaz, você perdeu um cliente.”

“Claro que não”, respondeu rápido. “Eu sou o jardineiro dela. Fiz isto apenas para medir o quanto ela estava satisfeita comigo.”

                                                                                                             Fonte: Revista Casa e Jardim (Ning)